segunda-feira, 25 de outubro de 2010

CRÔNICAS GUIANENSES...(2)

Benoît era um mulato claro, magro e alto, que cultivava um bem cuidado cavanhaque e andava sempre imaculadamente de branco. Falava pausadamente e em tom baixo, a educação em pessoa. Mas por baixo de toda aquela aparente polidez escondia-se um temperamento violento e truculência implacável. Administrava com mão de ferro o Chez Moi, um misto de bar, cabaré e cassino clandestino, a meio caminho de Kourou.

Corria à boca pequena que Benoît era o ponta de lança de vários negócios escusos em que estavam envolvidos alguns luminares de Caiena, boato do qual jamais tive comprovação. Mas sua fama conduzindo os negócios mais suspeitos já era crescente. E era em frente a este cidadão que eu me encontrava, sentado num final de tarde em seu escritório, admirando as águas plácidas e barrentas do rio Cayenne, enquanto entornava um cálice de Pernod.

Garimpo na Guiana Francesa, região do Rio Alto Mana.

Aquele encontro fora em função das atividades subterrâneas do meu amigo Walter, que passara umas semanas enfiado nos garimpos de ouro do rio Mana, nas profundezas da selva guianense. E o plano traçado por ele era muito simples: abastecer com comida, remédios, roupas ou o que mais aprouvesse as legiões de brasileiros que se aventuravam clandestinamente na Guiana, seja nas imediações de Caiena ou nos garimpos mal afamados da fronteira com o Suriname.

E o financiador da empreitada seria naturalmente o Benoît, com uma parcela considerável de grana para nós. Assim, uns dez dias mais tarde nos encontrávamos a bordo de um barco camaroneiro, ancorado ao largo de uma das dezenas de ilhas localizadas na foz do Rio Oiapoque, fronteira do Brasil. Dali nós seguiríamos de catraia até a cidade de Oiapoque, de onde iria de táxi áereo rumo a Macapá, lugar onde seriam feitas as compras.

Foz do Rio Oiapoque, fronteira Brasil-Guiana Francesa.

Cinco dias depois nós retornávamos a bordo de um caminhão carregado de mercadorias até o Oiapoque. Dali, embarcamos a carga numa vigilenga até a foz do Oiapoque, onde tudo foi trasladado para o barco camaroneiro francês e dali retornamos até as imediações do porto de Degrád de Cannes, no estuário do Rio Mahury.

A operação foi coroada de sucesso e rendeu uma grana federal ao Benoît, que programou para nós uma segunda investida ao Brasil nas semanas seguintes e nos mesmos moldes. Do meu lado, nada a reclamar: cada viagem dessas me rendia uns 5.000 dólares, o que me permitiu deixar definitivamente de lado meu humilde trabalho de lavar pratos e limpar mesas no bistrô de Mme. Angèlique.

A aventura na Guiana parecia finalmente render dividendos e enquanto aguardava pela terceira viagem, passava o tempo agora totalmente livre, presenciando as mais tenebrosas transações nas mesas do Chez Moi. E o tempo parecia escorrer lentamente naquelas noites quentes dos trópicos. Um perigo para espíritos despreocupados. Mas isso conto mais adiante...

(foto reprodução)

4 comentários:

regi nat rock disse...

vc tem o condão de interromper a narrativa no melhor momento.
Dá uma novela daquelas hein?
e fazvor de não demorar pro terceiro capitulo. Essa resenha semanal é um castigo.

Belair disse...

Regi,acho que o Joca tirou algumas lições lá dos Diários:um capítulo por semana(ou mais dias),aumenta o suspense,mesmo que tenhamos que reler o anterior para recordar alguns nomes.
Só acho que o pessoal poderia comentar mais(não só ler),quem sabe o Joca não resolveria diminuir esse intervalo

Mestre Joca disse...

Rapazes,

Não é suspense, não. Falta de tempo mesmo.Mas vou dar uma agilizada. Aguardem...

Abs

regi nat rock disse...

aguardandi, pois.
realmente o povo que vem até aqui bem que poderia comentar.
Essa maioria silenciosa é um pé no saco.